[Escrito ao som de Anathema - One Last Goodbye]
Decidi ir à feira popular. Estou farto de estar em casa, farto de viver isolado do mundo, dos dias cinzentos fechado em casa a olhar para as ruas a partir da minha varanda, dos cigarros queimados a marcar o avançar das horas, de tudo. Vou à feira popular. Vou hoje e é já!
Nada como a poluição sonora das pessoas e dos carros a passar com pressa de chegar sabe-se lá onde. No fundo são como a galinha, só querem chegar a outro lado.
Muitas pessoas a passar junto a mim.
Encontrões.
Gente mal educada.
Crianças a olhar fixamente e teenagers com hormonas aos saltos a sorrir.
Que mundo.
Vou até à vendedora de algodão doce. Que feia caralho, parece que têm todas ar de ciganas de terceira idade e verruga na beiçola. Caguei, eu quero é um algodão doce. Peço, pago e viro as costas à puta da velha.
Ao longe vejo a montanha russa. Já não ando de montanha russa há anos. É hoje. É hoje que vou fazer reset ao contador das saudades e mandar uns loops fodidos na cena. Vou até lá!
Não está muita gente a andar, ainda bem! Destesto sitios atulhados! Felizmente a montanha russa já não tem a fama e o prestígio de antigamente e já se pode andar sossegado. Entro e sento-me num banco sozinho. Atrás de mim vai um casalinho de namorados muito comprometido e à minha frente duas raparigas muito animadas que comentam o aspecto do rapaz que verifica os bilhetes à entrada da montanha russa.
Um solavanco.
Dois.
Um suave deslizar.
Estamos em movimento.
Devagar vamos ganhando velocidade. A primeira curva é canja, nem dá pica. A segunda a mesma coisa. A terceira tá ligeiramente melhor. À quarta sou projectado contra o outro lado do banco. Olho para a frente e as raparigas estavam em pânico. Não tinham baixado os coletes de segurança!
Só pensei "Tanto espalhafato, foda-se são só umas protecções". Mais uma curva apertada e com alguma inclinação e quase que caio lá para baixo. Mais outra. E outra. Começo a pensar como será quando chegarmos ao loop.
De repente vejo alguém a segurar-me nos braços. Vejo o meu cão de infância que foi roubado por ciganos lá do bairro. Vejos os amigos de escola, a primeira namorada. O primeiro patrão, esse filho da puta sovina, vejo a 2ª e actual namorada, vejo a entrada da feira, e de repente nada. Estou de volta à montanha russa. Instintivamente volto-me para trás e vejo a rapariga que momentos antes tinha visto com o namorado, aos berros, em pânico total. O namorado dela tinha caído lá em baixo.
Estranhamente a montanha russa não pára.
Agora sim, estou preocupado. Foda-se, mas os cromos desta merda não vêm que já caiu uma pessoa? Não param isto? As curvas sucediam-se e eu tinha de agarrar com força ao banco para não saltar para fora.
De repente chegamos a mais um loop. Vejo o meu pai a chamar-me princesa, os seios a crescerem-me e a sentir-me estranha, sentir-me como se não fosse algo natural, sentir-me pouco à vontade com os rapazes. Vejo-me na escola a olhar para os rapazes quando não estavam atentos, num bar a beijar um rapaz de cabelos compridos. Vejo-me na cozinha a preparar um jantar para ele. Vejo-o em cima de mim, a foder-me. Vejo estarmos a discutir e vejo a minha melhor amiga a dar-me apoio. Vejo-me a comprar o bilhete para a montanha russa. E de repente estou de volta ao meu lugar, ao meu corpo. Mas a rapariga loira que estava à minha frente desaparecera.
Também caiu.
"Estamos a morrer caralho!" grito lá para baixo. Pareceu-me que ninguém ouviu. "Foda-se, tá tudo parvo meu, quando sair daqui vou processar esta merda".
E mais uma curva, depois outra e outra.
Foda-se dei cabo de uma unha. E outra curva, e então mais um loop.
Vejo-me a nadar na praia. Vejo-me a conversar com uma amiga, a dar murros numa porta, a jantar. Vejo-me a guiar o meu carro, a dançar num bar. Vejo-me a foder uma mulher, duas, três, quatro. Vejo-me a discutir com um gajo, dois gajos, uma gaja. Vejo-me sozinho a beber e a fumar um cigarro aborrecido com o tédio. Vejo as horas a passar a contar os cigarros que vou fumando, vejo-me a sair de casa, a entrar na feira popular, a comprar algodão doce... e de repente "CRACK", um som baixo e rápido, um estalar de ossos.
Deixei de ver.
Publicado por HeartLess em julho 23, 2004 01:43 AMWOOOOWWWWWW....
puta que pariu tb kero um bafo dessa droga :)))
agora a sério... acho que é a melhor entrada de sempre, pelo menos nos meus gostos pessoais, seguida de perto pelas "acho que me ama" mas passou essa :)
Afixado por: Almah Perditae em julho 23, 2004 02:08 AMlindo :')
Afixado por: bruno em julho 23, 2004 08:41 AMHmmmm...andas a escrever bem Homem!
Surpreendeste-me e olha que isso não é fácil**beijo***continua a escrever assim....Bem!
Palavras para quê...
O meu sorriso diz tudo... :)*
mto bem.... gostei mto de ler isto!
a montanha russa é sempre perigosa,"corre" a uma velocidade incrivel e nunca tamos preparados pa "descida"!
Afixado por: ana joão em julho 24, 2004 06:50 PM